A psiquiatria costuma ser vista, de fora, como a especialidade que “trata da mente” ou “dos transtornos psicológicos”, mas essa definição é pequena demais diante da complexidade do ser humano que chega ao consultório. Nenhuma pessoa se apresenta apenas como um conjunto de sintomas. Ela carrega um corpo que sente, uma história que a moldou, relações que a sustentam ou adoecem, crenças que dão sentido ou murmuram culpa, e silêncios que às vezes falam mais alto que qualquer queixa verbalizada. O olhar clínico não começa no diagnóstico, mas no reconhecimento de que toda vida é maior do que o que cabe em um prontuário.
Se há algo que a experiência psiquiátrica ensina é que o sofrimento humano não é linear. Ele não surge de uma única causa, nem se resolve com uma única resposta. A depressão pode nascer de uma perda devastadora ou de uma falha na regulação neuroquímica; a ansiedade pode ser tanto produto de um trauma quanto de um corpo constantemente em estado de alerta; um delírio pode proteger alguém de uma verdade insuportável, assim como pode ser consequência de um cérebro inflamado. A clínica se move nesse território onde biologia, emoção e contexto se entrelaçam — e onde simplificações se tornam perigosas.
Quando um paciente se senta diante de um psiquiatra, não se abre apenas um caso médico, mas um encontro entre vulnerabilidades: a de quem sofre, e a de quem sabe que não possui todas as respostas. O médico que acredita ter controle absoluto sobre o enigma humano corre o risco de tornar-se cego à singularidade. A psiquiatria mais honesta não é a que oferece certezas rígidas, mas a que suporta perguntas sem pressa: “O que está acontecendo com você?”, “O que significa este sofrimento na sua vida?”, “O que foi perdido antes que os sintomas aparecessem?”
Se a medicina tradicional busca identificar a lesão, a psiquiatria precisa identificar também o vínculo. Nessa área, diagnóstico não é apenas nomear um transtorno, mas reconhecer a narrativa de onde ele nasceu. Um mesmo sintoma pode significar abandono, culpa, exaustão, desamparo, trauma, injustiça ou desregulação biológica — e a forma como é tratado depende do que ele representa para aquela pessoa. Por isso, o psiquiatra precisa ouvir como cientista e como testemunha humana ao mesmo tempo.
A ciência explica muito, mas não tudo. Sabemos hoje sobre neurotransmissores, circuitos neurais, genética, estresse oxidativo, inflamação e plasticidade cerebral. Mas nada disso anula o fato de que um abraço pode acalmar mais que um benzodiazepínico, que um vínculo protetor pode reduzir risco suicida mais que uma cartela de estabilizadores, e que certos sofrimentos só melhoram quando alguém finalmente é escutado com legitimidade. O que a neurociência chama de regulação afetiva, a vida chama de cuidado.
É verdade que o ser humano é biologia — mas é biologia atravessada por sentido. O luto não é apenas queda de serotonina; a vergonha não é apenas hiperatividade da amígdala; a solidão não é apenas disfunção dopaminérgica. Cada emoção carrega um enredo, e cada enredo responde ao mundo de maneira singular. A clínica é o lugar onde esse enredo pode ser reorganizado para que a pessoa não seja refém de um capítulo traumático.
Se existe um paradoxo central na psiquiatria, ele talvez seja este: o profissional precisa ter formação científica suficiente para prescrever medicamentos com precisão e, ao mesmo tempo, sensibilidade suficiente para reconhecer quando o que o paciente mais precisa não é de uma dose nova, mas de um lugar onde sua dor seja compreendida e não patologizada. Medicamentos podem salvar vidas, mas vínculos terapêuticos podem devolvê-las ao movimento.
Por isso, o ser humano visto por um psiquiatra não é reduzido a cérebro, nem elevado a abstração. Ele é corpo que sofre, mente que interpreta, ambiente que influencia, e subjetividade que tenta sobreviver ao que viveu. É um ser que formula perguntas para as quais a ciência, sozinha, não tem resposta: “Por que eu?” “Por que agora?” “Como seguir?” Essas perguntas não constam no DSM e CID, mas são elas que sustentam grande parte da dor — e às vezes, da cura.
O ser humano é um mistério clínico porque é, antes de tudo, um mistério existencial. E talvez o maior ato de cuidado seja reconhecer que ninguém se resume ao que lhe aconteceu — nem ao que lhe falta.
No fim, o trabalho do psiquiatra não é apenas tratar transtornos, mas ajudar a pessoa a reorganizar sua relação com o próprio sofrimento, para que ele deixe de ser um destino e se torne um processo. Nenhum remédio substitui um encontro humano capaz de restaurar dignidade. Nenhuma psicoterapia eficaz ignora o corpo. Nenhuma explicação biológica apaga o impacto de uma infância ferida. Nenhuma predisposição genética é maior que o poder de uma rede de apoio ou de um simples abraço.
Dra. Camila Silva Dr. Carlos Teixeira Dra. Glauce Sousa Dra. Heloisa Mello Dr. Kleber Oliveira











